Oi, Psi!
A divulgação das notas preliminares da prova discursiva do TJ-CE trouxe uma preocupação importante: em muitas redações, os maiores descontos apareceram justamente em Tema, Interpretação Crítica e Progressão Textual.
Ao comparar diferentes espelhos corrigidos pela FCC, percebe-se que há textos bem escritos, organizados e com ótimo desempenho linguístico que perderam pontos de forma significativa nesses critérios mais interpretativos.
Nem todo desconto está necessariamente errado. Mas algumas correções merecem uma análise cuidadosa antes do fim do prazo recursal.
O que a FCC realmente cobrava?
O tema era “Solidão e experiência moderna”.
Isso significa que não bastava escrever genericamente sobre solidão, redes sociais, ansiedade ou depressão. A proposta pedia uma relação entre a solidão e as transformações da vida moderna.
Individualismo, fragilidade dos vínculos, capitalismo, interioridade, produtividade e redes sociais poderiam aparecer, desde que ajudassem a explicar como a experiência moderna modificou a forma de viver a solidão.
Parte dos descontos observados parece decorrer justamente de textos que permaneceram no assunto geral, mas exploraram pouco esse recorte.
O que chama atenção nas correções
A comparação entre as redações mostra situações em que textos bastante semelhantes receberam distribuições diferentes de pontos entre Tema e Interpretação Crítica.
Também aparecem redações com notas quase máximas em Língua Portuguesa, mas perdas relevantes nos aspectos macroestruturais.
Isso não prova, por si só, que a correção esteja errada. Redação envolve julgamento qualitativo. Porém, quanto maior o desconto, mais importante é conseguir identificar qual deficiência concreta do texto o justificou.
Se um critério vale 2 pontos e a nota foi 1, por exemplo, houve uma perda de 50% da pontuação disponível naquele item.
Repertório não garante pontuação alta
Bauman, Byung-Chul Han, Marx, Vygotsky e outros autores aparecem nas redações analisadas. As notas, porém, variaram bastante. Citar autores e referências, por si só, não garante boa pontuação. Trabalhamos bastante isso na mentoria.
A FCC não parece ter valorizado a simples presença do repertório. O que fez diferença foi a função daquele autor dentro da argumentação: o autor precisa ajudar a desenvolver a tese, e não apenas aparecer no texto.
Quando faz sentido analisar um recurso?
Vale comparar três elementos:
- a proposta da redação;
- a expectativa de resposta divulgada pela FCC;
- o que efetivamente foi escrito na prova.
Se a expectativa da banca exige determinado elemento e esse elemento está claramente desenvolvido na redação, mas a pontuação foi muito reduzida, existe espaço para questionar tecnicamente o desconto.
O recurso pode seguir uma estrutura simples:
- Fato: indicar a nota recebida e a pontuação máxima do critério;
- Demonstração: mostrar as linhas da redação que atendem à expectativa da banca;
- Pedido: solicitar a revisão e a majoração da pontuação.
O recurso não deve apenas dizer que a redação estava boa. Precisa demonstrar onde o critério foi atendido.
O principal aprendizado dessa correção
A análise das redações mostra duas coisas.
A primeira é que a FCC cobrou uma leitura específica do tema. “Solidão” era o assunto; “Solidão e experiência moderna” era o recorte.
A segunda é que alguns descontos em Tema, Interpretação Crítica e Progressão Textual merecem ser examinados com atenção, principalmente quando o texto apresenta elementos previstos pela própria expectativa da banca.
Antes de aceitar a nota preliminar, vale conferir critério por critério e localizar exatamente o que justificaria cada perda.
Se a redação atende ao que a FCC afirmou esperar, o recurso precisa mostrar isso. A subjetividade que naturalmente existe na correção de uma redação não pode significar ausência de fundamentação. Quando a banca aplica descontos relevantes em Tema, Interpretação Crítica ou Progressão Textual, mas não indica de forma individualizada qual falha concreta do texto justificou aquela perda, o candidato fica sem saber exatamente o que teria deixado de cumprir.
Isso dificulta, inclusive, o exercício do contraditório na fase recursal. Se os elementos previstos na expectativa da FCC estão presentes na redação e não há uma justificativa clara para a redução da nota, há fundamento para interpor recurso e pedir a revisão da pontuação, indicando objetivamente as linhas em que cada critério foi atendido.
Por isso, antes de aceitar a nota preliminar, vale conferir cada critério separadamente e comparar o que foi exigido com aquilo que efetivamente aparece no texto.
Se houver correspondência entre a expectativa da banca e a argumentação desenvolvida, e o desconto não estiver claramente justificado, o recurso é o caminho adequado para pedir a revisão da nota.
O recurso deve ser objetivo: indicar o critério questionado, apontar as linhas da redação que demonstram seu atendimento e solicitar a majoração da pontuação. Não se trata de reescrever a prova ou acrescentar argumentos novos, mas de mostrar à banca aquilo que já estava no texto e que pode não ter sido devidamente considerado na correção.
O que fica dessa correção da FCC
A prova do TJ-CE confirma uma característica importante da FCC: compreender o assunto geral não basta. É preciso responder ao recorte exato construído pela proposta e pelos textos motivadores.
Ao mesmo tempo, critérios como Tema, Interpretação Crítica e Progressão Textual não podem funcionar como uma justificativa genérica para descontos expressivos. Quanto maior a perda de pontos, mais importante se torna verificar se há, de fato, uma deficiência no texto capaz de sustentá-la.
Para quem recebeu uma nota abaixo do esperado, a orientação é simples: leia novamente a expectativa da banca, volte à sua redação linha por linha e não deixe de recorrer quando houver elementos concretos para questionar a pontuação atribuída.
Bons estudos, Psi!
Com carinho,
Prof. Monique
Quem escreve
Psicóloga, servidora pública federal, professora e mentora de psis que estão se preparando para concursos públicos de Psicologia.
Gostou deste texto?
Obrigada, psi!