Psicologia do Desenvolvimento para concursos: Piaget, Vygotsky, Wallon e Bowlby

16 de setembro de 2026
Arte em fundo vinho com a frase "Como não trocar Piaget por Vygotsky" e a marca Professora Monique Mistura.

Oi, Psi!

Piaget, Vygotsky, Wallon e Bowlby costumam aparecer no mesmo item do conteúdo programático, mas eles não respondem à mesma pergunta sobre o desenvolvimento humano.

Daí nasce uma dúvida que eu vejo com frequência entre as alunas: preciso estudar os quatro? Dá para decorar os estágios de Piaget e resolver a maior parte das questões? Bowlby é conteúdo de Psicologia do Desenvolvimento ou de Psicologia Clínica?

Neste artigo, vamos separar o que cada autor explica, onde eles discordam e qual informação do enunciado permite reconhecer quem está sendo descrito na questão.

O que o edital quer dizer quando escreve “Psicologia do Desenvolvimento”?

Costuma dizer pouco.

Esse item aparece no conteúdo programático em poucas palavras, como “desenvolvimento humano”, “teorias do desenvolvimento” ou “desenvolvimento infantil e da adolescência”.

O edital nem sempre informa quais autores serão cobrados, e isso deixa a delimitação por conta de duas fontes: as provas anteriores da banca do seu concurso e a bibliografia da área, que trata um conjunto de autores como clássicos do assunto.

Piaget, Vygotsky, Wallon e Bowlby estão nesse conjunto, e por isso aparecem juntos com frequência nas provas de Psicologia.

Se você está comparando conteúdos programáticos de concursos diferentes, reuni as oportunidades que estamos acompanhando na página de editais abertos para Psicologia.

Como Piaget explica o desenvolvimento?

Piaget estudou como o conhecimento se constrói, e a resposta dele está na interação entre a criança e os objetos do mundo.

A criança age sobre o mundo e organiza essas ações em esquemas, que são as estruturas de que ela já dispõe para lidar com uma situação.

Quando a situação nova cabe no esquema que já existe, ocorre a assimilação. Quando ela não cabe e o esquema precisa se modificar, ocorre a acomodação.

A reorganização que acontece depois desse desequilíbrio chama-se equilibração, e é o processo que faz o desenvolvimento avançar.

Os estágios são quatro e obedecem sempre a esta ordem: sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório formal.

No sensório-motor, aproximadamente do nascimento aos dois anos, a criança conhece o mundo pela ação e pela percepção, e constrói a permanência do objeto, quando passa a saber que o objeto continua existindo mesmo quando sai do seu campo de visão.

No pré-operatório, aproximadamente dos dois aos sete anos, aparecem a função simbólica, o jogo de faz de conta e a linguagem, e o pensamento ainda é egocêntrico, o que significa que a criança tem dificuldade de considerar o ponto de vista do outro.

No operatório concreto, aproximadamente dos sete aos onze ou doze anos, a criança realiza operações mentais reversíveis e conquista a conservação, percebendo que a quantidade de água não muda quando o líquido é transferido para um copo mais estreito.

No operatório formal, a partir dos onze ou doze anos, o raciocínio passa a trabalhar com hipóteses e com o que é possível, sem depender do material concreto que está diante da pessoa.

Por que Vygotsky chega a uma resposta diferente da de Piaget?

Porque a pergunta dele era outra.

Vygotsky quis explicar como se formam as funções psicológicas superiores, que são a atenção voluntária, a memória mediada, a linguagem e o pensamento abstrato.

A resposta dele está na mediação: a criança não se relaciona diretamente com o mundo, e sim por meio de instrumentos e de signos que a cultura oferece, sendo a linguagem o principal deles.

Esse processo tem uma direção. O que primeiro acontece entre pessoas, no plano social, depois se reorganiza dentro da própria criança, e essa passagem do social para o individual chama-se internalização.

Daí vem a divergência que mais aparece em questão. Em Piaget, o desenvolvimento das estruturas mentais possibilita novas aprendizagens; em Vygotsky, o aprendizado construído na relação com o outro impulsiona o desenvolvimento.

A mesma divergência reaparece na fala egocêntrica, aquela fala que a criança dirige a si mesma enquanto brinca ou resolve uma tarefa.

Piaget a descreveu como expressão do egocentrismo infantil, que diminui conforme a criança se descentra. Vygotsky discordou, porque entendia que essa fala não desaparece: ela se transforma em fala interior e passa a organizar o pensamento.

O que é a zona de desenvolvimento proximal?

É a distância entre dois níveis, e por isso ela só existe quando os dois são considerados juntos.

O nível de desenvolvimento real é o que a criança já faz sozinha, porque as funções necessárias para aquilo já amadureceram.

O nível de desenvolvimento potencial é o que ela consegue fazer com a ajuda de um adulto ou de uma criança mais experiente. Parte das traduções usa “desenvolvimento iminente” no lugar de “potencial”, e as duas expressões aparecem em prova.

A zona de desenvolvimento proximal é o espaço entre esses dois níveis, e indica as funções que estão em processo de maturação naquele momento.

A consequência para o ensino vem em seguida: o trabalho pedagógico que se limita ao que a criança já domina sozinha não produz desenvolvimento novo, porque atua sobre o que já está formado.

Quando o enunciado descreve uma criança que resolve a tarefa com apoio e ainda não consegue resolvê-la sem ajuda, ele está descrevendo a zona de desenvolvimento proximal, mesmo que não use esse nome.

Onde Wallon entra, se Piaget e Vygotsky já explicam o desenvolvimento?

Wallon estudou a pessoa inteira, e não apenas a inteligência.

Para ele, o desenvolvimento acontece em quatro campos funcionais que se articulam o tempo todo: a afetividade, o ato motor, a inteligência e a pessoa, que integra os outros três.

A ideia que organiza a teoria dele é a alternância. O desenvolvimento não avança em linha reta, e sim por conflitos e crises, com estágios voltados ora para a construção do eu, ora para o conhecimento do mundo exterior.

Os estágios que ele descreveu são o impulsivo-emocional, no primeiro ano de vida; o sensório-motor e projetivo, aproximadamente entre um e três anos; o personalismo, aproximadamente entre três e seis anos; o categorial, aproximadamente entre seis e onze anos; e a puberdade e adolescência.

A emoção ocupa um lugar próprio nessa teoria. Ela é a primeira forma de comunicação do bebê com o outro, e é por meio dela que o bebê obtém a resposta do adulto antes de dispor da linguagem.

Repare que o termo “sensório-motor” aparece nos dois autores com sentidos diferentes. Em Piaget, é o primeiro estágio, do nascimento aos dois anos. Em Wallon, é o estágio sensório-motor e projetivo, que vem depois do impulsivo-emocional.

Por que Bowlby aparece junto com eles?

Porque ele explicou uma parte do desenvolvimento que os outros três não explicam: o vínculo do bebê com quem cuida dele.

Bowlby entendeu o apego como um sistema comportamental com função de proteção. O bebê busca a proximidade de uma figura específica porque essa proximidade aumenta as chances de sobrevivência diante do perigo.

Isso responde à confusão mais comum nesse conteúdo. O vínculo não se forma porque o adulto alimenta o bebê, e a alimentação não é a origem do apego.

A figura de apego funciona como base segura: é a partir dela que a criança explora o ambiente, e é a ela que a criança retorna quando sente medo ou cansaço.

Com o tempo, a criança constrói representações sobre si mesma e sobre a disponibilidade do outro, que são os modelos internos de funcionamento, e essas representações orientam as relações que ela estabelece depois.

Bowlby também descreveu as reações à separação prolongada da figura de apego, em três fases: protesto, desespero e desapego.

A avaliação do apego em situação experimental veio com o procedimento da Situação Estranha, desenvolvido por Ainsworth, que identificou os padrões seguro, inseguro-evitativo e inseguro-ambivalente, também chamado de resistente. Um quarto padrão, o desorganizado, foi acrescentado depois.

Os quatro autores lado a lado

Autor O que ele explica Conceitos que identificam o autor na questão
Piaget Como a inteligência se constrói na interação da criança com o objeto Esquema, assimilação, acomodação, equilibração, conservação, reversibilidade, egocentrismo, permanência do objeto, os quatro estágios
Vygotsky Como as funções psicológicas superiores se formam na relação social Mediação, signo, instrumento, internalização, zona de desenvolvimento proximal, fala interior
Wallon Como a pessoa se constitui na alternância entre afetividade e cognição Campos funcionais, emoção, ato motor, personalismo, estágio categorial, alternância e conflito
Bowlby Por que a criança busca a proximidade de uma figura protetora Apego, figura de apego, base segura, modelos internos de funcionamento, protesto, desespero e desapego

Eu usaria esse quadro para reconhecer o autor dentro do enunciado, e não para decorar as colunas, porque a questão dificilmente vai reproduzir as mesmas palavras que estão aqui.

Como esse conteúdo costuma virar questão?

O deslocamento mais frequente é colocar o conceito no autor errado. A zona de desenvolvimento proximal atribuída a Piaget e a assimilação atribuída a Vygotsky são exemplos de alternativa que fica plausível para quem estudou os conceitos separados de quem os formulou.

Outra troca comum inverte a relação entre aprendizagem e desenvolvimento, afirmando que Vygotsky condicionava o aprendizado à maturação prévia das estruturas, quando é o contrário que ele sustentou.

A idade também é usada como armadilha, quando a alternativa transforma a média etária de um estágio de Piaget em critério rígido, ou desloca uma conquista de um estágio para outro.

Há ainda a mistura entre os estágios de Piaget e os de Wallon, que compartilham a expressão “sensório-motor” e organizam o desenvolvimento por lógicas diferentes.

Wallon costuma aparecer reduzido à afetividade, como se ele tivesse estudado apenas a emoção. A afetividade é um dos quatro campos funcionais da teoria dele, e a pessoa integra todos os campos.

Em Bowlby, a alternativa incorreta frequente explica o apego pela alimentação, e não pela função de proteção que o comportamento de apego cumpre.

Esse é um conteúdo que precisa voltar algumas vezes até que os quatro autores fiquem separados na sua memória, e a revisão espaçada resolve isso melhor do que uma leitura longa. Expliquei como organizar essas retomadas no artigo sobre ciclo de estudos para concursos de Psicologia.

Bons estudos!

Com carinho,

Prof. Monique

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Prof. Monique Mistura

Quem escreve

Prof. Monique Mistura

Psicóloga, servidora pública federal, professora e mentora de psis que estão se preparando para concursos públicos de Psicologia.

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