Oi, Psi!
Existe uma ideia que circula bastante entre as(os) candidatas(os): a de que Psicologia Social é a disciplina em que dá para acertar pelo bom senso, porque os assuntos parecem próximos daquilo que vivemos todos os dias.
Essa impressão tem uma origem. As questões de Psicologia Social costumam descrever situações reconhecíveis, como um grupo que se organiza em torno de uma tarefa, uma crença compartilhada dentro de uma comunidade ou um comentário dirigido a alguém por causa do grupo a que essa pessoa pertence.
Na hora de marcar a alternativa, porém, o que decide é outra coisa. Você reconhece o fenômeno descrito no enunciado, mas a resposta correta vem do conceito que determinada autora ou determinado autor construiu para explicar aquele fenômeno, e não da leitura que você faria da cena.
Neste artigo, vamos conversar sobre o que sustenta a Psicologia Social nos editais de Psicologia: as representações sociais, os processos de grupo, o preconceito e a Psicologia Social brasileira.
Duas tradições convivem dentro da Psicologia Social
Parte dos conceitos cobrados vem da tradição experimental, que estudou atitudes, influência social, processos de grupo e preconceito a partir de pesquisas feitas em situações controladas. É dela que saem boa parte das definições clássicas de estereótipo, preconceito, discriminação, norma de grupo e identidade social.
Outra parte vem da Psicologia Social brasileira, que se organizou a partir da crítica a essa tradição. A crítica é a de que explicar o comportamento apenas pelo que acontece dentro da pessoa deixa de fora as condições sociais e históricas em que essa pessoa vive.
As duas aparecem nas provas de Psicologia e não se anulam. Quando o conteúdo programático traz apenas “Psicologia Social”, sem detalhar os assuntos, a bibliografia indicada pelo edital é o que mostra de qual delas a banca vai partir.
Representação social é o conhecimento que um grupo constrói e compartilha
A teoria das representações sociais foi formulada por Serge Moscovici e trata do conhecimento do senso comum, que é aquilo que um grupo elabora em conjunto para explicar um objeto, uma ideia ou um acontecimento.
Esse conhecimento não é a opinião de uma pessoa. Ele é produzido na convivência, circula na conversa, na escola, na família e nos meios de comunicação, e serve para que as pessoas daquele grupo consigam se entender e agir diante do que é novo ou estranho para elas.
A representação social se forma por dois processos, e é por eles que as questões costumam perguntar.
Na ancoragem, aquilo que é desconhecido é classificado e nomeado a partir de categorias que o grupo já possui. Uma condição de saúde ainda pouco conhecida, por exemplo, passa a ser explicada por comparação com uma doença que aquelas pessoas já conhecem, e acaba recebendo o nome dessa comparação.
Na objetivação, o que era abstrato ganha forma concreta e passa a ser tratado quase como uma coisa que se pode ver. Um conceito complexo se transforma em uma imagem, em uma figura ou em uma expressão simples que as pessoas repetem no dia a dia.
Para diferenciar os dois em uma questão, observe o que o enunciado descreve. Se a situação fala em encaixar o novo dentro de uma categoria já conhecida, trata-se de ancoragem. Se fala em transformar uma ideia abstrata em imagem concreta, trata-se de objetivação.
Grupo se define pela interdependência entre as pessoas
Um grupo não é um conjunto de pessoas que estão no mesmo lugar ao mesmo tempo. Kurt Lewin trabalhou o grupo como uma totalidade dinâmica, o que significa que aquilo que acontece com uma pessoa altera a situação das demais, porque elas são interdependentes.
Por isso o grupo não é explicado pela soma das características individuais de quem participa dele. As propriedades do grupo nascem da relação entre essas pessoas, e é essa relação que a Psicologia Social estuda.
Enrique Pichon-Rivière acrescentou a tarefa a essa definição. O grupo operativo é um conjunto de pessoas ligadas por constantes de tempo e espaço, articuladas por sua mútua representação interna, que se propõe, de forma explícita ou implícita, a uma tarefa.
Mútua representação interna significa que cada participante carrega dentro de si uma imagem dos outros e do próprio grupo, e é a partir dessa imagem que ele se comporta ali dentro. A tarefa é o objetivo que reúne aquelas pessoas, e é em torno dela que aparecem tanto a cooperação quanto o medo da mudança.
Se o enunciado descreve pessoas reunidas em torno de um objetivo comum e menciona as resistências que surgem no caminho desse objetivo, os conceitos em jogo costumam ser o de grupo operativo e o de tarefa.
Estereótipo, preconceito e discriminação não são sinônimos
Os três termos aparecem juntos nos editais, e cada um nomeia uma coisa diferente.
O estereótipo é a crença generalizada a respeito de um grupo, que atribui as mesmas características a todas as pessoas que pertencem a ele. Ele está no plano do que se pensa, porque é uma forma de conhecimento, ainda que empobrecida.
O preconceito é a atitude negativa dirigida a alguém em razão do grupo a que essa pessoa pertence. Gordon Allport o descreveu como uma antipatia apoiada em uma generalização falha e inflexível, que continua existindo mesmo diante de informações que a contradizem.
A discriminação é o comportamento. Ela acontece quando a pessoa é tratada de forma desigual por pertencer àquele grupo, e por isso pode ser observada e descrita: negar o acesso a um serviço, recusar uma contratação ou separar pessoas em espaços diferentes.
Henri Tajfel e John Turner explicaram parte desse processo pela identidade social. As pessoas se classificam em grupos, retiram parte da própria identidade do grupo a que pertencem e comparam esse grupo com os outros, e a comparação tende a favorecer o grupo de que elas fazem parte.
Allport também formulou a hipótese do contato, segundo a qual a convivência entre pessoas de grupos diferentes reduz o preconceito quando algumas condições estão presentes: status equivalente naquela situação, objetivos comuns, cooperação em vez de competição e apoio das normas e das autoridades daquele contexto. O contato sozinho não produz esse efeito, e as condições fazem parte da própria formulação.
Muzafer Sherif observou, em pesquisas com grupos de meninos em acampamento, que objetivos incompatíveis entre dois grupos produzem hostilidade, e que essa hostilidade diminui quando os dois precisam alcançar juntos um objetivo que nenhum deles conseguiria sozinho. Ele chamou esse objetivo comum de meta supraordenada.
| O que o enunciado descreve | O conceito | O que observar |
|---|---|---|
| Uma crença generalizada atribuída a todas as pessoas de um grupo | Estereótipo | É uma crença, e está no plano do que se pensa |
| Uma atitude negativa dirigida a alguém pelo grupo a que pertence | Preconceito | Há avaliação e afeto, ainda sem ação praticada |
| Um tratamento desigual efetivamente aplicado a alguém | Discriminação | Há um comportamento que pode ser descrito |
| Um conhecimento compartilhado que explica um objeto para um grupo | Representação social | É produzido coletivamente e orienta a conduta |
| Pessoas reunidas por uma tarefa, com interdependência entre elas | Grupo operativo | Há objetivo comum e mútua representação interna |
Eu usaria essa tabela para reconhecer o conceito dentro do enunciado, e não para decorar as definições, porque a mesma situação pode ser descrita com outras palavras.
A Psicologia Social brasileira explica o comportamento pela história
A Psicologia Social produzida no Brasil se organizou em torno de uma crítica: a de que a disciplina vinha sendo usada para ajustar as pessoas às condições em que viviam, em vez de compreender como essas condições participam da formação de cada uma delas.
Silvia Lane é a principal referência dessa mudança, e “O que é Psicologia Social” é uma das obras mais conhecidas dessa perspectiva. A proposta é a de que a pessoa se constitui nas relações sociais, por meio da atividade, da linguagem e da consciência, e que a identidade se transforma ao longo da história de vida de cada uma.
Dessa mesma direção vem a Psicologia da Libertação, formulada por Ignácio Martín-Baró, que propôs uma Psicologia construída a partir das necessidades das maiorias populares da América Latina, e não a partir de problemas definidos em outros contextos.
Bader Sawaia trabalhou a exclusão social como um processo que inclui e exclui ao mesmo tempo, porque a pessoa participa da sociedade ocupando nela um lugar de desvantagem. Ela nomeou de sofrimento ético-político o sofrimento que nasce da forma como a sociedade trata determinados grupos.
Quando a bibliografia do edital vem dessa perspectiva, a alternativa que explica o comportamento apenas por características individuais dificilmente responde ao que está sendo perguntado. Nesses casos, observe se a alternativa considera as condições sociais e históricas descritas no enunciado.
O que observar no conteúdo programático do edital
Leia exatamente como a Psicologia Social aparece escrita no edital. Quando o conteúdo programático detalha os assuntos, como “representações sociais”, “processos grupais” ou “preconceito e discriminação”, esses são os pontos que precisam entrar na sua preparação.
Quando o edital traz apenas o nome da disciplina, a bibliografia indicada e as provas anteriores da banca ajudam a delimitar o que estudar primeiro. Se você está comparando conteúdos programáticos de concursos diferentes, mantenho uma página de editais para psicólogas(os) com as oportunidades que estamos acompanhando.
Perguntas frequentes
Como diferenciar estereótipo de representação social?
O estereótipo é uma crença rígida e generalizada sobre um grupo. A representação social é um conjunto mais amplo de explicações, imagens e valores que um grupo compartilha a respeito de um objeto e que orienta a conduta das pessoas diante dele. Um estereótipo pode fazer parte de uma representação social, mas não explica sozinho tudo o que ela organiza.
Psicologia Social Comunitária entra no estudo de Psicologia Social?
Entra, quando o edital a menciona. Ela é o desdobramento prático da perspectiva sócio-histórica: o trabalho acontece no território, junto à comunidade, com participação das pessoas na definição do que precisa ser feito, e não em um formato de atendimento individual transportado para fora do consultório.
Preciso ler os autores no original para responder às questões?
Depende do grau de literalidade da banca. Quando as provas anteriores mostram que a banca reproduz a definição do autor quase com as mesmas palavras, é preciso conhecer os termos exatos do conceito. Quando a cobrança é de compreensão, um material organizado que preserve os termos técnicos costuma ser suficiente.
O que eu faria hoje no seu lugar
Não tentaria cobrir toda a Psicologia Social de uma vez, porque ela reúne autores de tradições diferentes e a leitura sem recorte acaba se espalhando demais.
Separaria dez questões de Psicologia Social de provas anteriores e resolveria só essas dez.
Depois, em cada erro, eu faria uma pergunta só: faltou conhecer o conceito, ou eu conhecia o conceito e não percebi de qual perspectiva a questão estava falando? As duas respostas levam a revisões diferentes, porque a primeira pede o estudo do conteúdo e a segunda pede a comparação entre os autores.
Se você ainda não tem provas para começar esse trabalho, reuni provas anteriores no meu banco de provas de Psicologia.
Bons estudos!
Com carinho,
Prof. Monique
CURSOS DE PSICOLOGIA PARA CONCURSOS
A bibliografia de Psicologia Social é extensa, e você não precisa abrir cada autor para descobrir por conta própria o que deve estudar. Nos nossos cursos, o conteúdo de Psicologia Social já chega selecionado a partir do que as provas de Psicologia cobram, com os conceitos e os termos que as bancas utilizam para montar as alternativas.
Quem escreve
Psicóloga, servidora pública federal, professora e mentora de psis que estão se preparando para concursos públicos de Psicologia.
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Obrigada, psi!