Análise da DISCURSIVA SEDES/DF 2026

7 de setembro de 2026
Arte em fundo vinho com a frase "Análise da DISCURSIVA SEDES/DF 2026" e a marca Professora Monique Mistura.

Oi, Psi!

Depois da prova discursiva da SEDES-DF, voltei ao nosso material de preparação, aos temas que trabalhamos e, principalmente, ao método de resolução que usamos durante os treinamentos.

A ideia não é dizer que nós “adivinhamos” exatamente o tema da prova. Não foi isso.

O que a prova mostrou foi algo muito mais importante: o método que trabalhamos e os temas usados durante a preparação davam uma base muito consistente para construir a resposta exigida pela banca, mesmo diante de um caso que não havia sido treinado de forma idêntica.

E isso começa pela própria estrutura da discursiva.

Antes de olhar para o tema, precisamos olhar para a estrutura da prova

A prova discursiva da SEDES-DF trouxe um caso envolvendo uma família acompanhada pelo CREAS, com situação de violência física contra uma criança, sofrimento emocional, conflitos familiares, vulnerabilidade socioeconômica, dificuldades de acesso a direitos e necessidade de articulação entre diferentes serviços.

Depois da apresentação do caso, a banca formulou três grandes comandos.

No primeiro, exigiu uma análise da violência vivenciada pela criança, da justificativa apresentada pelo pai para o uso do castigo físico e da responsabilidade profissional da(o) psicóloga(o), incluindo fundamentos do ECA, do Código de Ética e de perspectivas teóricas sobre violência e desenvolvimento infantil.

No segundo, pediu a análise da posição da mãe diante da violência, com atenção aos limites concretos de sua atuação e à diferença entre culpabilização e corresponsabilização.

No terceiro, solicitou uma leitura do caso a partir da perspectiva crítico-dialética em Psicologia Social, considerando os diferentes sujeitos e contextos envolvidos e evitando reduzir o fenômeno à patologização individual.

Antes mesmo de discutirmos o conteúdo, há uma primeira constatação importante: a prova confirmou exatamente a forma de discursiva que trabalhamos durante a preparação.

O edital já havia informado que a prova seria um estudo de caso composto por múltiplos questionamentos, respondidos na forma de texto dissertativo.

No treinamento, chamamos atenção justamente para o fato de que não se tratava de uma peça técnica ou de um estudo de caso clássico. A banca apresentaria uma situação e faria várias perguntas, que precisariam ser organizadas dentro de um único texto.

Foi exatamente o que aconteceu.

A prova confirmou a lógica da “redação matematicamente correta”

Durante o nosso treinamento, trabalhamos duas regras que pareciam simples, mas que foram fundamentais para essa prova:

Regra de ouro 1: facilitar a vida do examinador.
Regra de ouro 2: responder diretamente ao que foi perguntado.

Isso se tornou ainda mais importante porque, na prova da Quadrix, o maior peso da nota estava justamente no conteúdo e no atendimento ao comando.

O critério CAC — Conteúdo e Atendimento ao Comando — correspondia a 70% da nota da discursiva. Organização textual e domínio da Língua Portuguesa correspondiam aos outros 30%.

Isso significa que não adiantava escrever um texto bonito, sofisticado ou cheio de conceitos se a candidata deixasse de responder um pedaço do que havia sido solicitado.

Foi por isso que insistimos tanto, durante a preparação, em evitar introduções genéricas, passeios históricos, frases excessivamente rebuscadas e textos que demoram para chegar à resposta.

O próprio material de treinamento identificava como erros importantes o texto que não vai direto ao ponto, a introdução desnecessária, as frases longas e confusas, a ausência de organização lógica e o uso de linguagem rebuscada.

Na prova aplicada, essa estratégia se tornou ainda mais relevante porque cada letra possuía diversos conteúdos internos.

Portanto, a candidata não precisava simplesmente “falar sobre violência infantil”.

Ela precisava localizar, dentro de cada item, tudo aquilo que o examinador esperava encontrar.

A principal técnica continuava sendo desmontar o comando antes de escrever

No treinamento, fizemos exatamente esse exercício.

Em vez de começar imediatamente a redação, pegamos o comando e o transformamos em pequenos blocos de resposta.

No exemplo trabalhado sobre interdisciplinaridade e trabalho em rede, primeiro identificamos o que precisava ser discutido e somente depois distribuímos esses conteúdos nos parágrafos.

A organização proposta naquele exercício foi:

  • 1º parágrafo: importância da interdisciplinaridade;
  • 2º parágrafo: importância da articulação intersetorial;
  • 3º parágrafo: papel da(o) psicóloga(o) na construção de estratégias de trabalho em rede;
  • 4º parágrafo: papel da(o) psicóloga(o) na garantia de direitos sociais.

A prova da SEDES-DF exigia exatamente a mesma operação mental.

O que mudou foi apenas a quantidade de informações escondidas dentro de cada comando.

Veja a letra a.

A candidata precisava falar sobre a violência física sofrida por Joaquim, analisar a justificativa do pai de que utilizava um “método tradicional de educação”, explicar a responsabilidade profissional da(o) psicóloga(o), relacionar a situação ao ECA, relacioná-la ao Código de Ética e ainda inserir perspectivas teóricas sobre violência e desenvolvimento infantil.

Portanto, antes de escrever, era necessário transformar a letra a em uma espécie de checklist mental.

E essa é uma aplicação muito importante do método: quando um item possui várias exigências internas, precisamos identificar também os microcomandos presentes dentro dele.

Em uma discursiva com vários comandos, o primeiro trabalho não é escrever. É descobrir quantas respostas a banca espera encontrar dentro daquele enunciado.

Os temas trabalhados estavam bastante próximos da matriz da prova

Não houve um tema de treino idêntico ao caso apresentado pela banca.

Nós não treinamos especificamente uma redação com o título “violência física contra criança no CREAS”.

Mas, quando analisamos o conjunto do material, percebemos que vários dos conhecimentos necessários para resolver a questão estavam distribuídos entre os temas trabalhados.

Um dos temas sugeridos tratava justamente da atuação da(o) psicóloga(o) no SUAS, incluindo suas atribuições nas equipes de referência, a dimensão psicossocial da prática profissional e a articulação com a rede socioassistencial.

Outro tema trabalhou o funcionamento das equipes de referência, a importância do trabalho multiprofissional, a contribuição específica da Psicologia e os desafios contemporâneos da atuação psicossocial na assistência social.

Também trabalhamos desenvolvimento na adolescência, fatores de proteção e vulnerabilidade e contribuições da Psicologia para o desenvolvimento saudável.

Além disso, um dos temas que mais se aproximou da lógica da prova foi o caso de uma pessoa idosa encaminhada ao CREAS em possível situação de negligência e abandono.

Naquele exercício, a candidata precisava analisar uma situação de violação de direitos, explicar o papel da(o) psicóloga(o) e da equipe multiprofissional e discutir a importância da articulação da rede de proteção.

Embora o sujeito protegido fosse diferente, o raciocínio profissional era muito semelhante.

Na resposta-modelo desse tema, trabalhamos identificação de fatores de risco, acolhimento, avaliação psicossocial, acompanhamento do usuário e de sua família, participação da equipe multiprofissional, visitas domiciliares, estudos de caso, registros técnicos, interrupção da violação e fortalecimento da proteção social.

Também trabalhamos a articulação da rede para encaminhamento, monitoramento, responsabilização e garantia de direitos.

Portanto, uma aluna que tivesse compreendido o raciocínio daquele exercício possuía uma base importante para lidar com o caso apresentado pela banca.

A letra “c” estava muito presente no nosso material, mesmo sem o mesmo nome

A banca pediu expressamente que a candidata analisasse o caso a partir da perspectiva crítico-dialética em Psicologia Social e evitasse reduzir o fenômeno a uma patologização individual.

A nomenclatura poderia parecer mais específica, mas o raciocínio necessário para construir essa resposta apareceu diversas vezes no nosso material.

Na resposta-modelo sobre atuação no SUAS, trabalhamos a ideia de que os fenômenos psicológicos são influenciados pelas condições históricas, sociais, culturais e econômicas vivenciadas pelos sujeitos.

Também deixamos explícito que a atuação da(o) psicóloga(o) não deve ficar restrita à análise de aspectos individuais, devendo considerar relações familiares, comunitárias e territoriais.

No tema sobre equipes multiprofissionais, voltamos a afirmar que situações de vulnerabilidade envolvem fatores psicológicos, familiares, econômicos, educacionais e jurídicos que não podem ser analisados isoladamente.

Também destacamos a necessidade de considerar os determinantes sociais, históricos e culturais da experiência dos sujeitos.

É exatamente essa lógica que permite compreender o caso sem transformar o sofrimento e os comportamentos apresentados pelos membros da família em problemas exclusivamente individuais.

A perspectiva crítico-dialética trabalha justamente com uma compreensão que considera historicidade, totalidade, contradições, mediações, relações de poder, determinação social e as condições concretas em que os sujeitos vivem.

Portanto, o fundamento necessário para responder ao terceiro comando estava presente no raciocínio que já havíamos utilizado em diferentes temas de treino.

A diferença entre culpabilização e corresponsabilização dentro do caso

Outro ponto importante da prova estava na análise da posição de Andrea.

A banca não queria apenas que a candidata dissesse que ela estava sofrendo.

Também não seria suficiente dizer que, como mãe, ela era responsável por proteger o filho.

Era necessário conseguir sustentar as duas coisas ao mesmo tempo.

Andrea estava inserida em uma situação marcada por medo, vulnerabilidade econômica, separação conjugal e dificuldades de acesso aos recursos necessários para agir.

Essas condições precisam ser consideradas para evitar que a intervenção profissional simplesmente transforme a mãe em culpada pela violência praticada pelo pai.

Ao mesmo tempo, reconhecer essas limitações não significa retirar Andrea do processo de proteção da criança.

É por isso que a diferença entre culpabilização e corresponsabilização é tão importante para compreender o caso.

Culpabilizar é responsabilizar individualmente alguém pelo problema, ignorando as condições sociais, econômicas, relacionais e institucionais que limitam sua capacidade de ação.
Corresponsabilizar significa reconhecer o sujeito como participante possível da construção da solução, considerando suas condições concretas e oferecendo suporte para ampliar sua capacidade de proteção e ação.

Essa análise conversa diretamente com o raciocínio que utilizamos durante a preparação sobre leitura contextualizada do sujeito, vulnerabilidade, proteção social e atuação psicossocial.

Como eu organizaria a resposta na hora da prova

Aplicando exatamente o método trabalhado durante a preparação, eu não faria uma introdução geral.

Também não gastaria linhas dizendo que “a violência é um fenômeno presente na sociedade contemporânea” ou apresentando historicamente o problema.

Eu utilizaria os três parágrafos para responder aos três comandos.

A estrutura seria aproximadamente esta:

  • 1º parágrafo: violência sofrida por Joaquim, inadequação do castigo físico como método educativo, responsabilidade da(o) psicóloga(o), proteção prevista no ECA, compromisso ético e repercussões da violência sobre o desenvolvimento;
  • 2º parágrafo: situação de Andrea, limites concretos de sua atuação, diferença entre culpabilização e corresponsabilização e necessidade de fortalecimento de sua capacidade protetiva;
  • 3º parágrafo: leitura crítico-dialética do caso, articulando Joaquim, Marcelo, Andrea e Mariana às condições sociais, econômicas, familiares, culturais e institucionais presentes, sem transformar os comportamentos apresentados em problemas exclusivamente individuais.

Esse formato faz exatamente aquilo que treinamos: permite que o examinador saiba, desde a primeira frase de cada parágrafo, qual comando está sendo respondido.

No treinamento, mostramos inclusive que a primeira frase deve trazer um conteúdo que o examinador obrigatoriamente procura na resposta.

Como ficaria uma resposta construída dentro do nosso método

Seguindo exatamente essa divisão em três parágrafos, uma possibilidade de resposta seria:

Joaquim vivencia violência física e psicológica, uma vez que os castigos corporais produziram lesões físicas e estão associados a medo, sofrimento emocional e recusa em permanecer com o pai. A justificativa de Marcelo de que utiliza um “método tradicional de educação” não legitima a agressão, pois crianças e adolescentes devem ser protegidos contra castigos físicos e práticas degradantes. Diante dessa violação, a(o) psicóloga(o) deve acolher e avaliar a criança, registrar tecnicamente a situação e atuar de forma articulada com a rede de proteção, em consonância com o ECA e com os princípios éticos da Psicologia relacionados à dignidade, à proteção de direitos e ao enfrentamento das formas de violência. Do ponto de vista do desenvolvimento, práticas coercitivas e experiências repetidas de violência podem repercutir na regulação emocional, na aprendizagem, nos vínculos e nas formas pelas quais a criança passa a se relacionar com outras pessoas.

A posição de Andrea deve ser analisada considerando as condições concretas que limitam sua capacidade de interromper a violência, entre elas o medo de represálias, a vulnerabilidade econômica, o processo de separação e as dificuldades de acesso à justiça. Culpabilizá-la significaria atribuir individualmente à mãe a responsabilidade pela continuidade da situação, desconsiderando as relações de poder e os obstáculos existentes. A corresponsabilização, por sua vez, pressupõe incluí-la na construção de estratégias de proteção de Joaquim, fortalecendo sua autonomia e sua capacidade protetiva por meio do acompanhamento do CREAS e da articulação com Conselho Tutelar, saúde, escola, justiça e demais serviços necessários, sem retirar de Marcelo a responsabilidade pelas agressões praticadas.

A perspectiva crítico-dialética permite compreender essa violência a partir das relações sociais e históricas nas quais a família está inserida, evitando explicar os comportamentos apresentados apenas por características individuais. A agressividade e o isolamento de Joaquim, o sofrimento de Andrea e Mariana e a violência praticada por Marcelo precisam ser analisados em relação às condições socioeconômicas, às relações familiares e de poder, ao histórico de violência, às concepções culturais sobre educação e às possibilidades concretas de acesso aos direitos. Essa compreensão não significa explicar a violência pela pobreza nem transformar os sintomas apresentados pelos membros da família em patologias individuais, mas reconhecer as diferentes mediações presentes na realidade. Assim, a intervenção psicossocial deve articular proteção da criança, responsabilização do agressor, fortalecimento dos sujeitos e atuação integrada da rede de garantia de direitos.

Um ponto importante: não era necessário “adivinhar a redação”

Talvez essa seja uma das maiores lições desta prova.

Uma boa preparação para discursiva não consiste em tentar prever exatamente qual caso será apresentado.

Isso seria muito frágil.

A candidata precisaria ter a sorte de encontrar, na prova, praticamente o mesmo tema que havia treinado.

O nosso objetivo foi diferente.

Trabalhamos estruturas de raciocínio que poderiam ser transportadas para diferentes casos: atuação psicossocial, leitura contextualizada do sujeito, trabalho com famílias, vulnerabilidade, violência, proteção social, atuação multiprofissional, articulação da rede, garantia de direitos e papel da(o) psicóloga(o).

Por exemplo, no treinamento que foi efetivamente enviado para correção, utilizamos um caso de pessoa em situação de rua e pedimos que a aluna analisasse fatores individuais, familiares e sociais, o papel da(o) psicóloga(o) e a articulação entre assistência social, saúde, justiça e demais políticas públicas.

O caso da prova era completamente diferente.

Mas a forma de pensar era muito parecida.

Esse é o tipo de aprendizagem que interessa para uma prova discursiva.

O que essa prova confirma para as próximas discursivas

A prova da SEDES-DF confirmou que, especialmente em bancas que atribuem grande peso ao conteúdo, uma boa discursiva depende muito menos de “escrever bonito” e muito mais de entender exatamente o que está sendo perguntado e entregar cada elemento solicitado de forma organizada.

Também confirmou que temas aparentemente diferentes compartilham estruturas conceituais bastante semelhantes.

Uma questão sobre pessoa idosa, população em situação de rua, criança vítima de violência ou família em vulnerabilidade pode exigir da candidata conhecimentos que se repetem: atuação psicossocial, proteção de direitos, análise contextualizada, trabalho multiprofissional, articulação intersetorial, acompanhamento familiar e compreensão dos determinantes sociais.

Por isso, diante de comandos extensos como os apresentados nessa prova, a aplicação do método fica ainda mais importante.

Antes de redigir, além de identificar os grandes comandos, é preciso perguntar:

“Quantas pequenas respostas estão escondidas dentro de cada comando?”

Porque, em uma banca cujo conteúdo e atendimento ao comando representam 70% da nota, perceber cada uma dessas exigências é decisivo para conseguir entregar uma resposta completa.

E esse talvez seja o principal ensinamento da discursiva da SEDES-DF:

a candidata que aprendeu a organizar o pensamento antes de escrever saiu em vantagem, mesmo que não tivesse treinado exatamente aquele caso.

Bons estudos!

Com carinho,

Prof. Monique

Mentorias

Corrigir a própria discursiva com critério ajuda bastante, mas chega um ponto em que você precisa de alguém lendo o que escreveu e apontando o que a banca não perdoaria. Essa leitura é uma das coisas que a gente faz junto na mentoria, resposta a resposta, junto com o ajuste do seu ciclo de estudos.

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Prof. Monique Mistura

Quem escreve

Prof. Monique Mistura

Psicóloga, servidora pública federal, professora e mentora de psis que estão se preparando para concursos públicos de Psicologia.

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