Psicanálise para concursos de Psicologia: o que estudar de Freud e como não confundir os autores

3 de outubro de 2026
Arte em fundo vinho com a frase "O que estudar de Freud para a prova?" e a marca Professora Monique Mistura.

Oi, Psi!

Estudar psicanálise para concursos de Psicologia envolve duas tarefas diferentes: conhecer os conceitos centrais de Freud e saber separá-los dos conceitos de autores que partiram dele, como Melanie Klein, Winnicott e Lacan.

As duas tarefas estão ligadas, porque uma alternativa de psicanálise pode estar errada sem trazer nenhum conceito inventado. Basta que ela atribua a Freud uma ideia verdadeira que pertence a outro autor, ou que coloque um conceito dele no texto errado.

As perguntas de quem começa esse estudo são parecidas com estas. Por onde eu começo em Freud? Inconsciente e id são a mesma coisa? Fase e posição são sinônimos? Como eu sei se um conceito é dele ou de outro autor?

Por onde começar a estudar Freud para concursos?

Pelos dois modelos que ele construiu para descrever o aparelho psíquico, que a literatura chama de primeira tópica e segunda tópica.

A primeira tópica divide o aparelho psíquico em três sistemas: inconsciente, pré-consciente e consciente. Freud apresentou esse modelo no capítulo VII de A interpretação dos sonhos, de 1900.

O critério dessa divisão é a relação de cada conteúdo com a consciência. O pré-consciente guarda aquilo que não está na consciência naquele momento, mas pode chegar até ela sem grande esforço, como o nome de uma rua conhecida que volta à memória quando alguém pergunta.

O inconsciente guarda aquilo que foi impedido de chegar à consciência, e a operação que produz esse impedimento é o recalque.

A segunda tópica aparece em O ego e o id, de 1923, e divide o aparelho psíquico em três instâncias: id, ego e superego.

O id reúne as pulsões e funciona pelo princípio do prazer. O ego faz a mediação entre as exigências do id, as do superego e as da realidade externa, e por isso funciona pelo princípio da realidade.

O superego reúne as proibições e os ideais que a criança recebe das figuras parentais, e Freud o descreve como herdeiro do complexo de Édipo.

Inconsciente e id são a mesma coisa?

Não.

O inconsciente é um dos sistemas da primeira tópica, e o id é uma das instâncias da segunda. Os dois modelos não coincidem, porque usam critérios diferentes: o primeiro divide os conteúdos pela relação com a consciência, e o segundo, pela função que cada parte cumpre no conflito psíquico.

A consequência mais importante dessa diferença está no ego. Em O ego e o id, Freud afirma que uma parte do ego também é inconsciente, e é dessa parte que vêm as resistências que aparecem no tratamento.

Por isso, uma afirmação como “o ego corresponde à parte consciente do aparelho psíquico” está errada. O ego e o superego têm partes conscientes, pré-conscientes e inconscientes, e só o id é inteiramente inconsciente.

Para reconhecer esse erro numa alternativa, observe se ela trata inconsciente e id como sinônimos, ou se coloca cada instância da segunda tópica inteira dentro de um único sistema da primeira.

O que é pulsão, e quais são os elementos dela?

Pulsão é uma força constante, que nasce de uma excitação do corpo e exige um trabalho do psiquismo. Freud a situa na fronteira entre o psíquico e o somático, e por isso a chama de conceito-limite.

No texto de 1915 que, conforme a tradução, aparece como As pulsões e seus destinos ou Os instintos e suas vicissitudes, Freud descreve quatro elementos da pulsão.

A pressão é a quantidade de força que ela exerce. A meta é sempre a satisfação. A fonte é o processo do corpo em que ela se origina. O objeto é aquilo em que, ou por meio de que, a pulsão alcança a satisfação.

Freud afirma que o objeto é o elemento mais variável da pulsão, porque não está ligado a ela desde a origem e pode ser trocado ao longo da vida.

Os nomes mudam conforme a tradução: a pressão pode aparecer como impulso, e a meta como alvo ou finalidade. Por isso, vale reconhecer cada elemento pela definição, e não só pelo nome.

Se o enunciado descreve a força, ele está falando da pressão. Se descreve a satisfação, está falando da meta. Se descreve a região do corpo, está falando da fonte, e se descreve aquilo que a pulsão usa para se satisfazer, está falando do objeto.

Nesse mesmo texto, Freud lista quatro destinos possíveis para a pulsão: a reversão ao seu oposto, o retorno em direção ao próprio eu, o recalque e a sublimação.

A teoria das pulsões também mudou ao longo da obra. No primeiro modelo, Freud opõe as pulsões sexuais às pulsões de autoconservação. A partir de Além do princípio do prazer, de 1920, a oposição passa a ser entre pulsão de vida e pulsão de morte.

Se uma alternativa atribuir a pulsão de morte a um texto anterior a 1920, o problema está na época da obra, e não na definição do conceito.

O que é recalque, e onde entram os mecanismos de defesa?

O recalque é a operação que afasta da consciência uma representação ligada à pulsão e a mantém no inconsciente. Em A história do movimento psicanalítico, de 1914, Freud chama a teoria do recalque de pedra angular de toda a estrutura da psicanálise.

O que foi recalcado não desaparece. Ele retorna de forma disfarçada nos sintomas, nos sonhos, nos atos falhos e nos chistes, e por isso esses fenômenos são o material com que o analista trabalha.

Ao longo da obra, Freud descreveu vários mecanismos de defesa, como o recalque, a projeção e a formação reativa. Em Inibição, sintoma e angústia, de 1926, ele retoma a palavra defesa como nome geral, e o recalque passa a ser um dos mecanismos de defesa, e não o único.

Quem reuniu e organizou esses mecanismos num livro foi Anna Freud, em O ego e os mecanismos de defesa, de 1936.

Uma alternativa que diga que Freud sistematizou a lista dos mecanismos de defesa do ego está atribuindo a ele um trabalho que foi de Anna Freud. O conceito de defesa é dele, mas a organização da lista não é.

Associação livre e atenção flutuante: quem faz o quê?

A associação livre é a regra fundamental da psicanálise e é pedida ao paciente: dizer tudo o que vier à mente, sem escolher o que parece importante, coerente ou adequado.

A atenção flutuante, também traduzida como atenção uniformemente suspensa, é a posição pedida ao analista: escutar sem privilegiar de antemão nenhum elemento do que é dito. Freud descreve essa atitude em Recomendações ao médico que pratica a psicanálise, de 1912.

Uma alternativa pode inverter os dois lados e afirmar que o analista pratica a associação livre. Para não cair nessa troca, lembre que a associação livre é uma regra para quem fala, e a atenção flutuante é uma atitude de quem escuta.

A transferência é a repetição, na relação com o analista, de desejos e modos de se relacionar que vieram das primeiras relações da vida da pessoa. Freud a trata ao mesmo tempo como uma resistência e como um dos instrumentos do tratamento.

Fase e posição são a mesma coisa?

Não. Fase é um termo de Freud, e posição é um termo de Melanie Klein.

Freud descreve o desenvolvimento da sexualidade em fases, organizadas em torno de uma zona do corpo: oral, anal e fálica, seguidas do período de latência e da fase genital. A base dessa teoria está nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, e Freud a completou em textos posteriores.

A latência é descrita como um período, e não como uma fase, porque nela a sexualidade infantil recua e não se organiza em torno de uma nova zona do corpo. Ela reaparece na puberdade, com a fase genital.

O complexo de Édipo atinge seu ponto alto na fase fálica, e é do declínio dele que nasce o superego.

Melanie Klein trabalha com posições: a posição esquizoparanoide e a posição depressiva. A diferença não está só no nome, porque uma fase é atravessada numa ordem, enquanto uma posição é um modo de organizar a angústia, as defesas e a relação com o objeto, ao qual a pessoa pode voltar ao longo de toda a vida.

Klein também situa o complexo de Édipo e o superego muito mais cedo do que Freud, já no primeiro ano de vida.

Para reconhecer o autor numa alternativa, observe as palavras do enunciado. “Fase” e “zona erógena” levam a Freud; “posição”, “seio bom e seio mau” e “identificação projetiva” levam a Klein.

Como saber se o conceito é de Freud ou de outro autor?

Winnicott e Lacan também partem da obra de Freud, e por isso os conceitos deles podem aparecer numa questão ao lado dos conceitos freudianos, às vezes com o nome do autor trocado.

A tabela abaixo reúne os conceitos que mais se confundem entre esses autores. Ela serve para conferir o autor depois de entender cada conceito, porque a questão pode descrever o conceito sem dizer o nome dele.

Autor Conceitos
Freud primeira e segunda tópicas, pulsão, recalque, complexo de Édipo, fases do desenvolvimento psicossexual, associação livre, atenção flutuante, transferência
Anna Freud sistematização dos mecanismos de defesa do ego
Melanie Klein posição esquizoparanoide, posição depressiva, identificação projetiva, seio bom e seio mau
Winnicott objeto e fenômenos transicionais, mãe suficientemente boa, holding, verdadeiro e falso self
Lacan estádio do espelho, real, simbólico e imaginário, Nome-do-Pai, o inconsciente estruturado como uma linguagem

A tabela também ajuda na correção das questões de psicanálise que você errar, e explico como usá-la para isso no fim do artigo.

Como estudar psicanálise para a prova?

Comece lendo como a psicanálise aparece no conteúdo programático do seu edital. Ele pode citar a psicanálise pelo nome, citar autores específicos ou trazer o assunto dentro de um item mais amplo, como teorias da personalidade ou abordagens psicoterápicas, e isso muda o quanto você precisa ir além de Freud.

A obra de Freud é extensa, e tentar ler os textos originais um por um, sozinha(o), consome um tempo que faz falta nas outras disciplinas do edital.

Nos nossos cursos de Psicologia para concursos, a psicanálise já chega com os conceitos de Freud separados dos conceitos de Klein, Winnicott e Lacan, e com a seleção dos textos de Freud que interessam para as provas, para que você não precise fazer essa separação sozinha(o).

Preciso estudar Klein, Winnicott e Lacan, ou só Freud?

Depende do edital.

Se o conteúdo programático cita esses autores pelo nome, eles entram na sua preparação, cada um com os conceitos centrais da própria obra.

Se o edital fala apenas em psicanálise ou em teorias da personalidade, Freud é a base, porque os outros autores partem dele.

Mesmo nesse caso, conhecer os principais conceitos dos outros autores ajuda a reconhecer uma alternativa que atribui a Freud o conceito de outra pessoa.

O que eu faria hoje no seu lugar

Pegaria a tabela de autores deste artigo e, para cada conceito de Freud, escreveria com as minhas palavras o que ele significa, sem olhar o texto.

Os conceitos que eu não conseguisse explicar seriam os primeiros da revisão. Depois, resolveria questões de psicanálise de provas anteriores e anotaria, em cada erro, se eu não conhecia o conceito ou se conhecia o conceito e o atribuí ao autor errado.

Essa separação muda a revisão. No primeiro caso, eu voltaria ao conceito. No segundo, bastaria conferir os autores na tabela, sem precisar estudar de novo todo o conteúdo.

Para esse treino, você pode usar o meu banco de provas de Psicologia, que reúne provas anteriores de concursos da área.

Bons estudos!

Com carinho,

Prof. Monique

Psicologia para concursos

Nas questões de psicanálise, os conceitos de Freud aparecem ao lado dos conceitos de Klein, Winnicott e Lacan, e a obra de Freud é extensa demais para você descobrir sozinha(o) quais textos dele entram na prova. Nos nossos cursos, a psicanálise já chega com essa separação feita e com os textos de Freud que interessam para as provas de Psicologia.

Conhecer os cursos

Prof. Monique Mistura

Quem escreve

Prof. Monique Mistura

Psicóloga, servidora pública federal, professora e mentora de psis que estão se preparando para concursos públicos de Psicologia.

Ler a história completa da Prof. Monique

Minha entrevista no podcast Como Passei!

Gostou deste texto?