Oi, Psi!
Quem ainda vai fazer a primeira prova de concurso costuma imaginar que o dia da prova é a parte simples. Você estudou durante meses, chega lá e responde o que sabe.
Eu entendo de onde vem essa ideia, porque a preparação inteira gira em torno do conteúdo. É o conteúdo que ocupa as suas horas de estudo, os seus resumos e as suas listas de questões.
Só que existem quatro coisas que só aparecem no dia da prova, e nenhuma delas se resolve apenas com conteúdo: o tempo, o cansaço, o cartão-resposta e a questão que trava.
Isso não significa que o conteúdo importe menos. Sem conteúdo não existe prova. O que eu quero te mostrar neste artigo é que fazer prova é uma habilidade diferente de saber Psicologia, e que ela começa a ser construída na primeira prova que você faz.
Quanto tempo você tem de prova?
Quando você estuda em casa, o tempo acaba sendo muito mais flexível, porque você pode resolver uma questão, conferir o gabarito, voltar ao PDF, procurar o ponto que esqueceu e só depois continuar a lista, sem que isso atrapalhe muito o estudo.
Na prova, porém, você tem uma quantidade de questões para responder dentro de um número determinado de horas, e por isso vale a pena fazer essa conta antes: quantas questões você precisa conseguir resolver, em média, dentro daquele tempo?
Isso não significa que você tenha de gastar exatamente o mesmo número de minutos em todas as questões. A ideia é apenas ter uma referência para perceber, ao longo da prova, se está avançando em um ritmo adequado ou se está demorando mais do que deveria.
Algumas questões serão resolvidas rapidamente, principalmente quando cobram uma regra ou um conceito que você reconhece com facilidade. Outras naturalmente vão exigir mais tempo, seja porque o enunciado é longo, seja porque as alternativas são muito parecidas e exigem mais atenção.
Por isso, eu usaria essa média apenas como uma forma de acompanhar o andamento da prova. Se metade do tempo já passou, por exemplo, é importante observar se você conseguiu avançar aproximadamente metade das questões, porque isso ajuda a perceber cedo quando é necessário ajustar o ritmo, em vez de descobrir o problema apenas nos minutos finais.
E confira no seu edital se existe nota mínima por disciplina. Quando existe, as disciplinas básicas não podem ficar com o tempo que sobrar.
Em que momento o cansaço chega?
Estudar várias horas em casa é diferente de passar várias horas em uma carteira, em silêncio, sem poder consultar nada e com o relógio correndo.
Em casa, você levanta, toma um café, responde uma mensagem e volta. São essas pausas que ajudam a sua atenção a durar tanto tempo.
Na prova, o cansaço costuma chegar quando ainda falta bastante prova pela frente. Ele aparece de um jeito discreto: você relê o mesmo enunciado três vezes sem entender, sente vontade de marcar qualquer coisa só para avançar e perde a facilidade de comparar duas alternativas que em casa você separaria sem esforço.
Isso não é falta de preparo. Cansaço depois de horas de concentração é o esperado, e o que dá para fazer é chegar com menos coisa gastando a sua energia.
Eu dormiria o quanto fosse possível na véspera, comeria antes de sair de casa e levaria água e um lanche, conferindo antes no edital o que é permitido entrar com você.
E eu não usaria as horas anteriores à prova para ver conteúdo novo, porque um assunto visto pela primeira vez tão perto da hora costuma gerar mais insegurança do que resposta certa.
O cartão-resposta precisa de um tempo só dele
Na prova objetiva, o que a banca corrige é o cartão-resposta. O caderno de questões pode estar inteiro resolvido, com as alternativas marcadas a lápis e as anotações na margem, e nada disso vira nota se não estiver no cartão.
Existem dois jeitos comuns de perder questão nessa etapa, e os dois acontecem com quem sabia a resposta.
O primeiro é o tempo. Você deixa a transcrição inteira para o fim, o tempo acaba antes e as últimas questões ficam em branco.
O segundo é o desencontro de linha. Você pula uma questão no caderno para responder depois, não pula no cartão, e a partir dali todas as respostas seguintes ficam deslocadas.
Eu sei bem como isso acontece. Na prova de analista do TRT da 2ª Região, em 2018, eu esqueci de virar a folha do gabarito e deixei as dez últimas questões em branco. Eram justamente as questões de gestão, que era a minha área.
Por isso, eu decidiria antes da prova como vou fazer essa transferência, porque decidir isso com o relógio correndo é muito pior. Passar as respostas bloco a bloco, por exemplo a cada dez ou a cada vinte questões, é o que eu faria. O número exato importa menos do que a decisão de não deixar tudo para o final.
O horário de término da prova está no edital e no comprovante de inscrição, e é ele que define quanto tempo sobra para a transcrição. Confira também se o seu edital prevê algum tempo a mais só para o preenchimento do cartão, porque alguns preveem e outros não.
E quando uma questão trava?
A questão que trava nem sempre é a mais difícil da prova. Muitas vezes é aquela em que você já ficou entre duas alternativas e sente que, com mais um minuto, consegue decidir.
Esse minuto costuma virar muito mais do que um minuto, e o tempo que ele consome sai das questões que você ainda nem leu.
Em Psicologia, isso costuma acontecer em dois tipos de questão.
O primeiro é a questão de norma, em que a alternativa reproduz quase inteiro o texto do artigo e troca uma palavra, como poderá por deverá, e você fica relendo para tentar lembrar qual das duas está no original.
O segundo é a questão de classificação diagnóstica, em que a resposta depende de a banca estar trabalhando com a CID-11 ou com o DSM-5-TR, e você conhece o transtorno pelos dois sistemas sem saber por qual deles a questão está perguntando.
Nos dois casos, a informação que falta não vai chegar por releitura. Por isso, eu decidiria antes de entrar na sala o que fazer quando isso acontecer.
Antes disso, confira no seu edital se existe desconto por resposta errada, porque isso muda a decisão inteira.
Quando não há desconto, o que eu faria é marcar a questão no caderno, escolher a alternativa que me parecesse mais provável naquele momento, transferir essa resposta para o cartão e seguir em frente. Se sobrar tempo no fim, eu volto nas que marquei. Se não sobrar, pelo menos as questões que eu sabia foram respondidas.
A dificuldade de deixar uma questão para trás costuma vir da mesma vontade de fazer tudo do jeito certo que atrapalha em outros momentos da preparação. Eu tratei disso no artigo sobre perfeccionismo nos estudos para concurso.
E se a sua prova tiver discursiva?
Se o seu edital prevê prova discursiva aplicada no mesmo dia da objetiva, essa é uma decisão que precisa estar tomada antes de você entrar na sala. E aqui eu não abro mão: não comece pela discursiva.
Escrever exige um tipo de concentração que consome muito. Quem começa pela discursiva chega à objetiva cansada(o) e com o tempo já comprometido.
Eu resolveria a objetiva inteira, transferiria tudo para o cartão e só então abriria a folha da discursiva.
Confira também quanto vale a discursiva no seu edital e se ela tem nota mínima, porque isso muda quanto tempo ela merece dentro da prova.
O que a sua primeira prova mostra sobre a sua preparação?
A primeira prova mostra como você funciona naquela situação, e isso o estudo em casa não mostra. Depois dela, você passa a saber, com dados seus, o que antes era suposição:
- quanto tempo você leva de verdade em uma questão de conhecimentos específicos;
- a partir de que ponto da prova a sua atenção começa a cair;
- que tipo de questão faz você travar;
- se o seu jeito de passar as respostas para o cartão funcionou;
- o que você faz quando o nervosismo aperta.
Nada disso aparece no percentual de acertos.
Quando o resultado sair, eu não pararia na nota.
O gabarito mostra quais questões você errou, e a lembrança do dia, revisitada com calma na semana seguinte, mostra em quais delas o erro veio do conteúdo e em quais ele veio do tempo, do cansaço ou da pressa de terminar. São informações diferentes, e a segunda é a que muda a sua preparação.
Por isso, eu não trataria a primeira prova como um veredito sobre a sua capacidade. Ela é uma etapa da preparação, do mesmo jeito que foi a primeira lista de questões que você resolveu.
Perguntas frequentes
Vale a pena fazer uma prova sabendo que eu ainda não estou pronta(o)?
Depende do que essa prova vai custar de você.
Fazer a prova de um concurso que você não estudou, sem tirar horas da preparação do seu alvo, é uma forma barata de aprender a fazer prova. Nesse caso, eu faria.
Dividir a preparação entre dois editais abertos ao mesmo tempo é outra coisa, e nisso eu sou radical: não dá. Quando existe um edital aberto para o seu alvo, o estudo é para aquele edital.
Você pode acompanhar o que está aberto na página de editais abertos para Psicologia e ver se existe alguma prova que caiba nessa condição.
O que eu preciso conferir antes do dia da prova?
O edital e o comprovante de inscrição, porque é ali que estão as informações que mudam de concurso para concurso:
- o endereço do local de prova e o horário de fechamento dos portões;
- qual documento de identificação é aceito;
- qual caneta é exigida;
- o que pode e o que não pode entrar com você na sala.
Eu conferiria isso alguns dias antes, e não na véspera, porque documento vencido e local de prova em outro bairro são problemas que só se resolvem com tempo.
E se eu ficar nervosa(o) demais na hora?
Fica tranquila. Nervosismo no dia da prova é o esperado, e ele não desaparece porque você decidiu que não quer sentir.
Tem uma metáfora da Psicologia de que eu gosto muito, que é a do jacaré embaixo da cama. Você não vai conseguir tirar o jacaré dali. O que você faz é saber que ele está ali, para não levar uma mordida em uma hora inapropriada.
Na prática, isso significa contar com o nervosismo, em vez de se assustar com ele quando as primeiras questões parecerem mais difíceis do que deveriam.
O que eu faria na semana da sua primeira prova
Eu não usaria essa semana para ver conteúdo novo.
Escolheria uma prova anterior do cargo que você vai disputar, ou de um cargo parecido, e resolveria ela inteira de uma vez só: sentada(o), com o tempo marcado, sem consultar nada e passando as respostas para uma folha à parte, do jeito que você faria com o cartão.
Uma vez só já resolve boa parte do que este texto tratou. O objetivo dessa simulação é descobrir onde o tempo aperta, a partir de quando a leitura fica mais lenta e como a transcrição funciona na sua mão. A nota, aqui, importa pouco.
Depois, eu olharia o que aconteceu ali com a mesma atenção que você daria ao gabarito. Na semana da prova, essas respostas valem mais do que mais uma revisão de conteúdo.
Se você ainda não tem provas anteriores para fazer isso, reuni provas no meu Banco de Provas de Psicologia.
Bons estudos!
Com carinho,
Prof. Monique
Mentorias
Depois da primeira prova aparece a pergunta mais difícil de responder sozinha: o que a prova mostrou sobre a sua preparação, e o que precisa mudar antes da próxima. É esse tipo de decisão que a gente toma junto na mentoria, olhando o seu desempenho de perto.
Quem escreve
Psicóloga, servidora pública federal, professora e mentora de psis que estão se preparando para concursos públicos de Psicologia.
Gostou deste texto?
Obrigada, psi!