Oi, Psi!
Nas teorias da personalidade, autores diferentes usam as mesmas palavras para falar de coisas diferentes. Self, traço, introversão e autossistema aparecem em mais de uma teoria, e cada autor dá a esses termos um sentido próprio.
Para quem estuda teorias da personalidade para concursos de Psicologia, isso importa porque uma questão pode descrever um conceito corretamente e atribuí-lo ao autor errado.
Quem estudou cada teoria separadamente, sem comparar os autores entre si, pode ter mais dificuldade para perceber essa troca na hora da prova.
Neste artigo, vamos organizar as abordagens em quatro grupos e comparar os autores que usam o mesmo termo com sentidos diferentes.
Quais são as abordagens das teorias da personalidade?
O livro Teorias da Personalidade, de Hall e colaboradores, organiza esse conteúdo dividindo os autores em quatro grupos, de acordo com a ênfase de cada teoria.
Na ênfase na psicodinâmica, a personalidade é explicada pelas forças inconscientes, pelos conflitos internos e pelos mecanismos de defesa. Estão neste grupo Freud, Jung, Erikson e os autores das teorias sociais de base psicanalítica: Adler, Fromm, Horney e Sullivan.
Na ênfase na estrutura, o interesse está nos elementos relativamente estáveis que compõem a personalidade, como necessidades, traços e disposições. Estão neste grupo Murray, Allport, Cattell e Eysenck.
Na ênfase na realidade percebida, o que organiza a personalidade é a forma como cada pessoa interpreta o mundo. Estão neste grupo Kelly, com a teoria do constructo pessoal, e Rogers, com a teoria centrada na pessoa.
Na ênfase na aprendizagem, a personalidade é formada pelas experiências e pelas consequências do comportamento, por meio de processos como condicionamento, modelagem e observação. Estão neste grupo Skinner, Dollard e Miller e Bandura.
Saber em qual grupo cada autor está ajuda a eliminar alternativas, porque cada ênfase procura a explicação da personalidade em um lugar diferente.
Se a alternativa explica a personalidade pelo inconsciente, ela aponta para a psicodinâmica. Se explica pela interpretação subjetiva do mundo, aponta para Kelly ou Rogers. Se explica pelas consequências do comportamento, aponta para os autores da aprendizagem.
Achar que introversão e extroversão pertencem só a Jung
Introversão e extroversão aparecem em Jung e em Eysenck, mas com sentidos diferentes.
Para Jung, introversão e extroversão são atitudes, ou seja, a direção da energia psíquica. Na atitude introvertida, a energia se volta para o mundo interno e subjetivo; na extrovertida, para o mundo externo e objetivo.
As duas atitudes existem na mesma pessoa, mas geralmente uma é dominante e consciente, enquanto a outra fica subordinada e inconsciente.
Jung também separava essas atitudes da sociabilidade. Uma pessoa introvertida, nessa teoria, não é definida por ser mais reservada ou menos sociável, e sim pela orientação da sua energia para o mundo interno.
Para Eysenck, introversão versus extroversão é uma das três dimensões da personalidade, ao lado de neuroticismo versus estabilidade emocional e de psicoticismo versus controle dos impulsos.
A teoria dele é de traço biológico, porque parte da ideia de que o funcionamento do sistema nervoso central influencia a forma como cada pessoa responde ao ambiente. Nela, a descrição se aproxima do sentido comum da palavra: a pessoa introvertida prefere atividades mais tranquilas e é mais reservada, e a extrovertida busca mais interação social.
Para diferenciar os dois em uma questão, observe as palavras que acompanham o conceito. Energia psíquica, atitude, inconsciente e as funções de pensamento, sentimento, sensação e intuição apontam para Jung. Dimensão, base biológica, neuroticismo e psicoticismo apontam para Eysenck.
Tratar traço como o mesmo conceito em Allport, Cattell e Eysenck
Os três trabalham com traços e estão no mesmo grupo, o da ênfase na estrutura. O que muda é o que cada um entende por traço e o caminho que usou para chegar a ele.
Allport definiu o traço como uma estrutura neuropsíquica capaz de tornar muitos estímulos funcionalmente equivalentes, orientando formas consistentes de comportamento.
Ele reservou a palavra traço para o que é comum às pessoas e criou o termo disposição pessoal para o que é peculiar a cada indivíduo. Proprium e autonomia funcional também são conceitos de Allport.
Cattell chegou aos traços por meio da análise fatorial e definiu a personalidade como aquilo que permite prever o comportamento de alguém em diferentes situações.
Ele dividiu os traços em traços de capacidade, de temperamento e dinâmicos. Os traços dinâmicos incluem os ergs, os sentimentos e as atitudes, que se organizam no que ele chamou de treliça dinâmica.
Eysenck, como vimos, descreveu a personalidade por meio de três grandes dimensões com base biológica.
Na questão, disposição pessoal, proprium e autonomia funcional levam a Allport. Análise fatorial, ergs e treliça dinâmica levam a Cattell. Neuroticismo e psicoticismo levam a Eysenck.
Ler “self” sem perguntar de qual autor ele é
A palavra self aparece em vários autores, e o sentido muda bastante de uma teoria para outra.
Em Jung, o self é o centro da personalidade e representa a sua totalidade. Ele também aparece entre os arquétipos do inconsciente coletivo, e a integração dos sistemas da personalidade em torno dele é a meta do processo de individuação.
Jung considerava essa integração completa uma meta ideal, que a pessoa busca durante a vida mesmo sem conseguir alcançá-la totalmente.
Em Rogers, o self é o autoconceito: a parte do campo fenomenal que se diferencia e reúne as percepções que a pessoa tem de si mesma, das suas relações e dos seus valores. Esse self é fluido e está sempre em mudança.
Rogers também fala do self ideal, que é aquilo que a pessoa gostaria de ser, e chama de congruência a harmonia entre o self e a experiência real do organismo.
Em Adler, o self criativo é a capacidade que cada pessoa tem de construir a própria personalidade, combinando o que é inato com a forma como interpreta as próprias experiências.
Allport, por sua vez, considerava que as palavras ego e self não descreviam bem o que ele queria dizer, e por isso criou o termo proprium para reunir essas funções.
Quando o enunciado falar de totalidade, arquétipo ou individuação, a referência é Jung. Quando falar de autoconceito, self ideal, congruência ou incongruência, a referência é Rogers.
Atribuir o autossistema apenas a Bandura
Sullivan e Bandura usam o termo autossistema, e a função que cada um atribui a ele é diferente.
Para Sullivan, autor da teoria interpessoal, o autossistema é um dos três elementos da estrutura da personalidade, ao lado dos dinamismos, que são padrões duradouros de resposta às situações interpessoais, e das personificações, que são imagens de si mesmo e dos outros.
Nessa teoria, o autossistema é uma medida defensiva contra a ansiedade. Ele funciona como um filtro da consciência, que protege a pessoa da ansiedade, mas interfere na forma como ela avalia a si mesma.
Para Bandura, o autossistema é o conjunto de estruturas cognitivas que regulam o comportamento. Ele envolve três processos: a auto-observação, o julgamento do próprio comportamento a partir de padrões pessoais e sociais e a autorreação, que pode ser recompensadora ou punitiva.
Determinismo recíproco, aprendizagem observacional, reforço vicário e autoeficácia também são conceitos de Bandura.
Se o autossistema aparece ligado à ansiedade e às relações interpessoais, a questão está falando de Sullivan. Se aparece ligado à autorregulação, à auto-observação e ao julgamento do próprio comportamento, a questão está falando de Bandura.
Supor que todo autor da psicodinâmica pensa como Freud
Adler, Fromm, Horney e Sullivan têm base psicanalítica e dão importância aos processos inconscientes, mas colocam os fatores sociais no centro da explicação da personalidade, cada um à sua maneira.
Por isso, quando uma alternativa atribuir a um desses autores a ênfase de Freud nos instintos e na motivação sexual, vale conferir se ela não trocou os autores.
Adler afirmava que as pessoas são mais motivadas pelas expectativas em relação ao futuro do que pelas experiências passadas. A busca de superioridade, para ele, não se refere a distinção social, e sim à busca de completude. Sentimento de inferioridade, estilo de vida e interesse social também são conceitos dele.
Horney discordou da ênfase de Freud na motivação sexual e colocou a cultura no lugar dos instintos. O conceito central dela é a ansiedade básica, que surge da vulnerabilidade e do desamparo da criança e pode levar a três tendências: aproximar-se das pessoas, afastar-se delas e ir contra elas.
Para Horney, os conflitos da personalidade resultam de experiências culturais, principalmente na infância, e não são inerentes à natureza humana, como pensavam Freud e Jung.
Erikson está no mesmo grupo, como autor psicanalítico contemporâneo. Ele ampliou os conceitos de Freud em uma teoria psicossocial com oito estágios, que vão da infância à velhice, cada um atravessado por uma crise.
Freud, por outro lado, considerava que a personalidade estava bem formada por volta do quinto ano de vida, e que o desenvolvimento posterior era, essencialmente, a elaboração dessa estrutura básica.
Teorias da personalidade: resumo dos conceitos que se confundem
| Conceito | Autor | O que ajuda a reconhecer |
|---|---|---|
| Introversão e extroversão como atitudes | Jung | Direção da energia psíquica, para o mundo interno ou para o mundo externo |
| Introversão e extroversão como dimensão | Eysenck | Base biológica, ao lado de neuroticismo e psicoticismo |
| Traço e disposição pessoal | Allport | Traço comum às pessoas e disposição peculiar a cada indivíduo; proprium; autonomia funcional |
| Traços de capacidade, de temperamento e dinâmicos | Cattell | Análise fatorial; ergs, sentimentos e atitudes na treliça dinâmica |
| Self como totalidade | Jung | Centro da personalidade e meta da individuação |
| Self como autoconceito | Rogers | Self ideal, congruência e incongruência |
| Self criativo | Adler | A pessoa constrói a própria personalidade |
| Autossistema defensivo | Sullivan | Proteção contra a ansiedade nas relações interpessoais |
| Autossistema autorregulador | Bandura | Auto-observação, julgamento e autorreação |
| Ansiedade básica | Horney | Aproximar-se, afastar-se e ir contra as pessoas |
A tabela serve para revisar depois de estudar cada teoria, e não para substituir esse estudo, porque a questão pode descrever o mesmo conceito com palavras que não estão aqui.
O que observar no conteúdo programático do edital?
O assunto pode aparecer no conteúdo programático com o nome “teorias da personalidade”, com o nome de abordagens ou autores específicos, ou junto de outros temas, como o desenvolvimento humano.
Quando o edital cita autores ou abordagens, essa lista orienta a sua prioridade de estudo. Quando usa apenas a expressão genérica, as provas anteriores da banca ajudam a perceber quais teorias aparecem nas questões daquele certame.
Se você está comparando conteúdos programáticos de concursos diferentes, a página de editais abertos para Psicologia reúne as oportunidades que estamos acompanhando.
Perguntas frequentes
Preciso estudar todos os autores das teorias da personalidade?
Depende do que o seu edital pede.
Se o conteúdo programático cita autores ou abordagens, eles são a sua prioridade. Se usa apenas a expressão “teorias da personalidade”, os quatro grupos de ênfase ajudam a montar um mapa do assunto antes de entrar nos detalhes de cada autor.
Uma forma de começar é identificar o conceito que organiza cada teoria. Para Freud, a chave para entender a personalidade está nos instintos; para Murray, está nas necessidades; e, para Allport, está nos traços.
Depois que esse conceito central está claro, os demais conceitos de cada autor passam a fazer mais sentido, porque você entende de onde eles partem.
A partir daí, as questões da sua banca mostram quais autores e quais detalhes precisam de mais tempo na sua revisão.
Qual é a diferença entre personalidade, caráter e temperamento?
Essa distinção é de Allport.
Para ele, a personalidade é a organização dinâmica, dentro do indivíduo, dos sistemas psicofísicos que determinam seus ajustamentos únicos ao ambiente.
O caráter tem uma conotação ética, porque se refere a um código de comportamento usado para avaliar a pessoa ou as suas ações.
O temperamento se refere a determinantes biológicos, que mudam relativamente pouco ao longo do desenvolvimento. Para Allport, o temperamento, a inteligência e o físico são a matéria-prima a partir da qual a personalidade se forma.
Erikson entra em teorias da personalidade ou em desenvolvimento humano?
Nos dois, e por isso vale estudar Erikson mesmo quando o edital coloca o autor em apenas um desses temas.
Na organização de Hall e colaboradores, Erikson aparece na ênfase psicodinâmica, como autor psicanalítico contemporâneo. Ao mesmo tempo, a teoria dele é uma teoria do desenvolvimento psicossocial ao longo de toda a vida.
Os oito estágios de Erikson são atravessados por crises psicossociais, e cada crise pode ser enfrentada de forma positiva, quando o ego se fortalece, ou negativa, quando o ego se fragiliza.
As quatro primeiras fases de Erikson correspondem às fases oral, anal, fálica e de latência de Freud, e as quatro últimas correspondem à fase genital. Essa correspondência ajuda a(o) candidata(o) a relacionar os dois autores quando a questão compara as duas teorias.
Como estudar teorias da personalidade para a prova
Depois de estudar cada teoria, eu resolveria questões do assunto e observaria o motivo de cada erro.
Em teorias da personalidade, o erro pode acontecer porque você não conhecia o conceito ou porque conhecia o conceito, mas o atribuiu a outro autor.
Essa diferença muda a revisão, porque, no primeiro caso, você precisa voltar à teoria e, no segundo, à comparação entre os autores que usam o mesmo termo, como fizemos neste artigo com self, traço, introversão e autossistema.
Para treinar com provas reais, você pode utilizar o banco de provas de Psicologia, que reúne provas anteriores de concursos da nossa área.
Se você prefere estudar com o conteúdo já organizado por abordagem e por autor, pode conhecer também os nossos cursos de Psicologia para concursos.
Bons estudos!
Com carinho,
Prof. Monique
Cursos de Psicologia para concursos
Nos nossos cursos, as teorias da personalidade já chegam organizadas pelos quatro grupos de ênfase, com os conceitos centrais de cada autor explicados um a um, para que você não precise montar sozinha(o) esse mapa lendo os manuais de cada teoria.
Quem escreve
Psicóloga, servidora pública federal, professora e mentora de psis que estão se preparando para concursos públicos de Psicologia.
Gostou deste texto?
Obrigada, psi!